Imprensa

por Alexandre Mate¹

Na primeira semana de fevereiro de 2026, em distintos espaços da maior capital teatral do país, assisti a quatro montagens de coletivos teatrais, inseridos na categoria de sujeito estético-histórico teatro de grupo. Além da montagem de Somos Periferia pelo Circo Teatro Palombar, assisti: A Missa do Vaqueiro do CTI – Cia Teatro de Investigação; As Armas Milagrosas: Seis Personagens à Procura de Existência – produzida pela Corpo Rastreado; Hip Hop Hamlet – Núcleo Bartolomeu de Depoimentos; {Fé}sta – Coletivo Prot{agô}nistas.

De modos distintos, e por caminhos diversos, os cinco coletivos em destaque têm vocações e práxis estéticas decorrentes de proposições épico-periféricas.

Somos Periferia, espetáculo criado em proposição colaborativa, organizada e coordenada por um dos pássaros originais do valoroso Pombas Urbanas, Adriano Mauriz, tem como epicentro de vida, de tradições, de convivialidades, de aprendizagens trocadas e sempre partilhadas a distante (? para quem? De onde?) Cidade Tiradentes, extremo Leste da cidade de São Paulo.

Reverbera, na condição de pulsação vital, o território do valoroso coletivo circense paulistano. Assim, e para começar, sobretudo pela permanentemente mencionada Cidade Tiradentes, é possível afirmar que uma das protagonistas da obra, que fez a artistada Palombar crescer e manifestar-se, também por intermédio da linguagem circense-teatral, é aquela localidade. Território original dos Ururai, dizimados pelos invaso-colonizadores. Atualmente, trata-se, depois dos Estados a formar o Nordeste brasileiro, do maior território nordestino do Brasil.

O Circo Teatro Palombar (a quem peço licença para escrever) nasceu em 2012, a partir de um processo de formação com crianças no Centro Cultural Arte em Construção, que se caracteriza na sede do essencial, e não apenas para a Cidade Tiradentes, Instituto Pombas Urbanas (criado pelo valoroso Lino Rojas).

O espetáculo, em tese, inicia-se com uma espécie de “cortejo de entrada”, cujo mestre de cerimônias é o cativante e carismático, Paulo Wesley. O artista, com domínio de palco e de cena, aquece o público e cria um clima, essencial para a obra que virá.

Estruturalmente, e depois do “cortejo”, a obra se compõe a partir de números tocados (instrumentistas muito bons!), números circenses variados e bem desenvolvidos (monociclo, equilíbrio, lira, malabarismo, acrobacias…), números variados de dança e saltos mortais, capoeira etc. Intermediando os números circenses, quase na condição de uma revista circense, há distintas narrativas (cujo modo adota proposições do hip hop ou do rap) com a mescla de palavras cantadas (ou “cantofaladas”).

De fato, a partir da primeira narração, considerei o texto meio piegas e por demais afirmativo e, na sequência comecei a “entender” tudo. Entendi o lugar nas mentes e nos corações daquela trupe especial de artistas. Já a partir da segunda intervenção percebi o que se estava em jogo: a afirmação social daquele agrupamento e a necessidade, absolutamente fundamental de, ao riscar o chão, firmar-se de modo verdadeiramente ligado à sua emancipação.

Trata-se de um coletivo criativo, absolutamente exemplar, com destreza e seriedade e muito, muito brilho e encantamento nos olhos. Sentei-me ao lado de Amilton de Azevedo, crítico e pessoa cuidadosa, generosa, com lisura absoluta… Mesmo sem os arrebatamentos, solicitados pelo conjunto, sinto que nossa sintonia com relação à obra foi bastante parecida.

Antes de o espetáculo começar, o queridíssimo e mui respeitado artista de tantas criações e atuações fantásticas, Adriano Mariz “confessou” certo receio quanto à obra em destaque. Trata-se, segundo a fala do diretor, de obra não tão inserida nas tradições circenses históricas, mas de criação coletiva ligada ao chamado novo circo. As formas populares de cultura, diferentemente das chamadas formas burguesa de representação (drama, a comédia “elegante”…) reconfiguram o já existente. Uma obra coletiva (e é este o caso) tem de se “encaixar” e estar de acordo com o público e comunidade à qual ela se destina. Portanto, o apetite antropofágico é absolutamente fundamental.

Cumprimento, entusiástica e vivamente “o povo que sabe amarrar e desamarrar as cordas a sustentar as lonas circenses”. Confesso que estava muito emocionado e fragilizado por mortes e doenças de pessoas amadas, mas uma imensa e contagiante alegria foi me tomando, como espectador, ser social e pesquisador da linguagem teatral.

Quero, depois da licença solicitada inicialmente, mesmo sem saber, exatamente, o nome de cada integrante do Palombar, cumprimentar o conjunto criador de memorável e lhes desejar uma linda e terna caminhada. Sim, e é preciso reiterar “somos – sim e sempre na afirmação – periferia!


Ficha Técnica

Coordenação geral e direção: Adriano Mauriz

Conjunto de artistas criadores da cena:
André Canário e Jé Versatil (convidados);
Anna Karolina, Giuseppe Farina, Guilherme Torres, Henrique Augusto, Henrique Nobre, Jessica Nascimento, Leonardo Galdino, Marcelo Inagua, Paulo Wesley, Vinícius Maurício

Cenografia, projeção e animação: Coletivo Coletores
Produção e adereços: Circo Teatro Palombar
Iluminação: João Alves
Som: JP Hecht e Edi Oliveira
Figurinos: Carlos Alberto Gardin
Direção de movimento: Ronaldo Aguiar
Orientação acrobática: Mano a Mana
Assessoria de imprensa: Luciana Landelini de Souza
Composição musical: Tita Reis
Orientação vocal: Wiliam Guedes²


¹ Filho de operária, nascido em Vila Anastácio; mestre em Teatro pela ECA, doutor em História Social pela FFLCH ambas na USP; professor-orientador no programa de pós-graduação do Instituto de Artes da Unesp; pesquisador e autor de inúmeros textos sobre a linguagem teatral.

² Para conhecer mais sobre o Coletivo, consultar o livro de Adailtom Alves Teixeira. Circo Teatro Palombar: Somos Periferia; Potência Criativa! São Paulo: Editora Fala, 2024.

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