Imprensa

Por Luciano Carvalho¹

Salve camaradas, vou rabiscar algumas impressões a respeito do lindo trabalho que vocês realizaram no Sesc Belenzinho, no domingo de carnaval.

Tá evidente que vou elogiar o trampo, já falei que tá lindo, mas vamos qualificar os elogios. Não pretendo enaltecer o Palombar, seria fácil pelo carinho que tenho por vocês. Minha disposição é de partilhar a experiência de espectador, oferecer meu olhar desde a platéia.

Começo destacando a delicada e eficaz direção do Adriano. Parece simples, mas bem sei como é difícil organizar ritmada e harmonicamente um conjunto de cenas independentes e autorais. Esse fino olhar requer experiência e o diretor apresentou maturidade e fluidez.

Bonita e funcional organização do palco com dois sets laterais em diagonal projetada ao público e um telão andaime, com sombrite de obra estampando a periferia nas estruturas que servirão de suporte para a projeção. A periferia representada na referência ao trabalho invisível da construção civil, morada dos pedreiros, serventes.

Na tela o reforço da dramaturgia em pixos, tags, fotos, paisagens, situações, cenários do cotidiano (em destaque a Cidade Tiradentes). Na tela o trampo da rapaziada que se especializou na liguagem da projeção, o coletivo Coletores. Ficou interessante esse diálogo com a cena.

Não é novo, é recorrente em shows musicais, em certas peças teatrais, mas, o Somos Periferia grifa elementos e habilidades de quem é cria. O espetáculo circense, musical, teatral é sobre isso: evidenciar uma cultura que tá dando certo e, para isso, buscou aliados que estão na luta, no corre cotidiano mostrando que as coletividades se fortalecem.

Parece óbvio, mas não é. Juntar linguagens e afirmar o trabalho coletivo é tarefa complexa. Somar e dar espaço e expressão para camaradas é ação política direta.

Voltemos ao início, o preâmbulo do Paulinho. Ótima cena. A partir dos silêncios e da construção gradual de desafios ao público ele se monta como palhaço regente, meio MC, meio protagonista, meio operário do espetáculo que será apresentado. Carismático, o palhaço percussionista segue para o fundo do palco, atrás da bateria, mas não some, continua partilhando a regência da exposição periférica que se desenrola.

Coros dançantes entram em cena. Trazem os bailes, o funk, passinho. É a quebrada se mostrando em diálogo com a palhaçaria. O mesmo coro realiza movimentos relativamente simples de apoio circense, preenchendo a cena com inteligência e versatilidade. Gradualmente amplia a dificuldade de movimentos e interações cênicas e musicais.

A música transcorre durante todo o trabalho executada pelos mesmos circenses multi artistas de quebrada. É muito legal observar o público se encantando com a capacidade da turma que está no palco.

A banda Palombar tem alguns grandes momentos. Algumas fragilidades no canto, nada que comprometa, sinal de que há um caminho a percorrer.

Quero destacar o número do diabolô e do monociclo. Momentos circenses que crescem embalados pela banda, público vibrando. O momento da terceira altura eleva a platéia ao teto do teatro. Capoeira, break dance, beatbox, MC Jé versátil — caramba, olha quanta coisa!

Mais uma vez dou ênfase à direção: transições de cena sutís e perspicazes. Quando nem percebo as mudanças é que admiro hehehe.

Há um pequeno problema na luz, imagino que seja difícil afinar a projeção em conjunto com a luz. A segunda altura fica no escuro, um momento tão atraente com um quarteto suspenso perde um pouco do brilhantismo.

As canções que lembram a igreja, o pagode, o samba, rap, Soul. Tô nessa profusão de enumerações e lembranças para enfatizar a alquimia realizada em cena. Vocês juntaram muitos elementos da cultura de periferia ao circo. Fizeram isso de modo tão orgânico que passamos a acreditar que circo é periferia tanto quanto o rap, o samba e a capoeira.

O teatro tornar-se popular, divertido e, como não poderia deixar de ser, político. Político porque o trabalho destaca que são trabalhadores da arte. Enaltecem a classe trabalhadora com a linguagem da periferia, sendo periferia e sendo trabalhadore(a)s.

Vejam a complexidade dessa operação política. São da classe, enaltecem a classe, conclamam a união e usam o sonho e a força de vontade como motor. Embora possa parecer um discurso empreendedor, há uma importante distância deste. É um discurso para acreditar e lutar pra conquistar uma vida melhor.

O caminho é a unidade, o reconhecimento das raízes e origens, a solidariedade e humildade no proceder. É uma festa de exibição e conquista. Mas não é festa de ostentação. Não há elogio às soberbas vitórias do consumismo e do menosprezo aos que não alcançaram o pódio.

Somos Periferia é um convite ao trabalho coletivo por meio de um trabalho coletivo. Muita coerência no conjunto apresentado.

Ah, não poderia esquecer da batucada final em homenagem à escola de samba da Cidade Tiradentes, Príncipe Negro. Está muito bom! Elevam os ânimos, o espetáculo termina nas alturas. O tempo passou rápido, quando percebi estávamos no final do trabalho.

Parabéns camaradas! Esse trampo está nas mãos de vocês. Quanto mais apropriados estiverem, melhor ficará.

Obs. Sobre discurso político e possíveis dubiedades nas canções e dramaturgia a gente pode trocar ideias em outro momento. Tô a disposição.

Valeu, obrigado pessoal.

¹ Luciano Carvalho, membro fundador do coletivo Dolores. Dirige, atua e escreve para teatro. Ministrou aulas teatrais em cidades do Brasil, Cuba, Venezuela, Nicarágua, Argentina e Moçambique. Compõe o coletivo nacional de Cultura do MST e a coordenação da brigada nacional Patativa do Assaré. Possui graduação em jornalismo, especialização em educação do campo e agroecologia, mestrado em geografia. Atua com ações políticas e estéticas na periferia de São Paulo há mais de 25 anos.

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